Essa Semana saiu na midia uma noticia sobre um fragmento de pergaminho que contem indicios de que Jesus tenha sido casado com Maria Madalena segue abaixo um artigo extraido do site
www.Criacionismo.com.br:
Jesus teria sido casado? Essa pergunta varreu as redes de comunicação
nas últimas horas devido a um fragmento antigo que parece desmentir a
assertiva de que Jesus era solteiro. Tive acesso a uma cópia prévia do
artigo da professora de Havard, Karen L. King (com contribuições de
AnneMarie Luijendijk), que será lançado em Janeiro de 2013 na Harvard
Theological Review. Nele a autora, de fato, apresenta um fragmento de
papiro escrito em Copta e datado do 4º século d.C., e que traz um
diálogo entre Jesus e Seus discípulos, no qual o Mestre usa a expressão
“minha esposa”. Alguns noticiários (felizmente não todos) divulgaram de
modo sensacionalista que teríamos aqui o primeiro indício de que,
contrariando a posição oficial do cristianismo, Jesus teria, sim, Se
casado com Maria Madalena. Será isso verdade? Vamos primeiramente ver o
que diz o fragmento que mede 4 cm x 8 cm – algo pouco maior que um
cartão de visitas.
No anverso, temos oito linhas incompletas com traços ilegíveis de uma
nona linha e outras seis linhas podem ser lidas no verso. É importante,
contudo, dizer que nem a autora nem eu somos especialistas em
papirologia ou em língua copta, portanto, as conclusões tanto da Dra.
Karen quanto as minhas são sugeridas após a avaliação técnica de outros
expertos no assunto. Diz o texto:
Anverso:
1. “não [para] mim. Minha mãe me deu a vi[da...”
2. os discípulos disseram a Jesus: “[
3. negar. Maria é digna de... [alguns sugerem que o correto seria: “Maria não é digna de...]”
4. …” Jesus disse a eles: “Minha esposa… [
5. …ela será capaz de se tornar um discípulo… [
6. Deixe os iníquos incharem… [
7. Quanto a mim, eu moro com ela de modo que… [
8. uma imagem [
Verso:
1. minha mã[e
2. três [
3. … [
4. Diante do qual …
5. traços de tinta ilegíveis
6. traços de tinta ilegíveis
Observações de papirólogos e linguistas
Como o papiro pertence à coleção particular de um anônimo, é difícil
avaliar completamente sua procedência ou sua autenticidade. Contudo,
muitos elementos apontam para a possibilidade maior de ser um texto
verdadeiro, produzido na Síria ou mais provavelmente no Egito e datado
do 4º século d.C. Não sabemos como o papiro chegou às mãos do
colecionador nem em que condições foi adquirido.
Essas conclusões preliminares foram assinadas pelos Drs. Roger
Bagnall, papirólogo e diretor do Instituto para Estudo do Mundo Antigo
de Nova Iorque, e AnneMarie Luijendijk, da universidade de Princeton.
Pelo menos dois outros especialistas, no entanto, colocaram em dúvida a
autenticidade do papiro, baseados principalmente em algumas dificuldades
gramaticais que foram posteriormente bem respondidas. Portanto, temos
uma chance muito grande de estar diante de um documento autêntico. Novas
pesquisas laboratoriais envolvendo a tinta do manuscrito poderão lançar
maior luz sobre essas questões.
Observações da Dra. King
Não sabemos o gênero desse documento, nem quem o escreveu. Colocou-se
o nome “Evangelho da Esposa de Jesus” (com a sigla em inglês
GosJesWife) por mera identificação provisória sem a pretensão de que
seja realmente um evangelho apócrifo ou que o título represente mesmo o
cerne de seu conteúdo.
Pela análise textual, é mais provável que a Maria mencionada no texto
seja Maria Madalena e não Maria mãe de Jesus, cuja referência aparece
na primeira linha. Mas, a despeito disso, o fragmento não é,
definitivamente, uma “prova” ou argumentação séria de que Jesus de
Nazaré fosse casado. O papiro foi escrito muito tempo depois dos dias de
Cristo, e mesmo que seja a tradução de um original que dataria do
segundo século, ainda assim estamos tratando de uma fonte muito tardia
que nada teria a ver com o real fundador do cristianismo.
Esse seria o mais antigo fragmento de manuscrito a mencionar que
Jesus teria uma esposa e seu original deve datar da segunda metade 2º
século d.C. (posterior ao ano 150), o que mostra que o assunto já estava
em discussão naquele tempo. As razões da polêmica podem ser as mesmas
que envolveram a questão do celibato e do domínio sobre as paixões
carnais que começaram a ser debatidas com força no segundo século d.C.,
conforme vemos nos escritos de Clemente de Alexandria e outros.
Existem paralelos importantes entre esse texto e outros documentos
como os evangelhos canônicos e o evangelho de Tomé. No entanto, trata-se
de um fragmento inteiramente inédito, com um conteúdo ainda
desconhecido e não inteiramente concordante com os outros textos até
agora descobertos.
Minhas observações
Em primeiro lugar, achei tremendamente lúcidas as posições da Dra.
Karen. Minha única nota de ceticismo fica por conta da afirmação
taxativa da autora de que esse é o texto mais antigo a mencionar que
Jesus teria uma esposa. As razões do receio nesse ponto são simples:
primeiramente temos de acentuar que o texto encontrado data do 4º século
d.C. É, portanto, conjectural a afirmação de que se trata de uma
tradução de outro texto grego original mais antigo e que esse dataria do
segundo século. Não há evidências adicionais para afirmar ou desmentir
essa tese; é uma possibilidade, não certeza absoluta. Segundo: ainda que
esse texto provenha do grupo de textos apócrifos surgido no 2º século,
ele não pode ser considerado o mais antigo apenas por mencionar
explicitamente a expressão “minha esposa”. Afinal, outros textos, como
“o evangelho de Felipe”, ainda que de modo indireto, dão a entender que
teria havido alguma relação marital entre Jesus e Maria, e não temos
meios de saber qual seria mais antigo. Fora isso, concordo com as demais
análises da Dra. King.
Mas é importante dizer que não há nada nessa descoberta ou nesse
estudo que ameace a ortodoxia cristã. Muito menos que se trate de algo
jamais conhecido pelos teólogos cristãos. Na verdade, o que temos é o
eco de um grupo de cristãos dissidentes (a maioria da cidade de
Alexandria, no Egito) que criaram um movimento chamado gnosticismo. A
maioria dos especialistas acredita que esse movimento surgiu no fim do
primeiro século, início do segundo. Alguns poucos autores, no entanto,
estão começando a sugerir que raízes gnósticas já poderiam ser vistas
nos dias de Paulo! Seja como for, era um movimento marginal e não a voz
tradicional da Igreja Cristã primitiva.
Mas o que eles ensinavam? Sua doutrina é muito complexa para ser
explicada em poucas palavras e eles eram multifacetados em muitos
segmentos, cada um dizendo uma coisa diferente da outra. Contudo, em
termos gerais, podemos dizer que eles foram muito influenciados pela
filosofia helênica que dominou a cidade de Alexandria e tentaram moldar o
cristianismo com base nessa filosofia. Aqui é importante esclarecer que
a filosofia helênica tinha importantes diferenças em relação àquela
outra filosofia grega que surgiu no 6º século a.C., com os
pré-socráticos, e terminou com os tratados de Aristóteles. É claro que
uma deu origem à outra e há muitas continuidades entre ambas, mas nessa
nova fase havia exagerada mistura de filosofia com mitologia e
misticismo religioso.
Os gnósticos eram cristãos que a princípio queriam tornar o
cristianismo mais aceitável a seus compatriotas alexandrinos,
especialmente os líderes e intelectuais do povo. Seu grande problema,
porém, era que o cristianismo original, aquele pregado por Jesus e pelos
apóstolos, chegava a ser patético diante dos olhos do mundo grego de
Alexandria. Ideias como encarnação, ressurreição, morte expiatória numa
cruz, etc. não tinham boa receptividade entre os pagãos. Eram rejeitadas
antes mesmo de se iniciar um diálogo. Então o jeito foi adaptar o
cristianismo para torná-lo mais aceitável e menos preconcebido. Em
outras palavras, o que fizeram foi modificar a figura do Jesus histórico
(isto é, aquele que realmente existiu e foi descrito nos primeiros
evangelhos) criando um Cristo gnóstico, mais elegante e aceitável ao
povo grego.
Esse novo Cristo, por exemplo, à semelhança de Sócrates e Platão, só
ensinava por meio de diálogos. Era místico e não sentia dor, nem
sofrimento de espécie alguma. Ele também trazia um ensino ou
conhecimento secreto que somente pessoas iniciadas poderiam conhecer.
Daí o nome “gnósticos”, que vem da palavra grega gnôsis, isto é,
conhecimento. Com isso, dava-se um “jeitinho alexandrino” de explicar os
ensinos menos aceitáveis de Jesus. Eles diziam que aqueles eram
ensinamentos pueris dados para a multidão ignorante, mas o verdadeiro
ensino fora dado, de modo secreto, apenas para os iniciados. Negou-se
também a morte de Jesus na cruz, afirmando que quem teria morrido, na
verdade, havia sido o homem Jesus, pois o espírito do Cristo teria
voltado para o Pai, no pleroma superior, onde viveriam os espíritos mais
elevados.
Foi nessa “onda” que surgiu também a necessidade de se criar uma
esposa para Jesus de Nazaré, a fim de fazer jus às ideias de que
espíritos evoluídos estavam sempre em pares (casais) e nunca sozinhos. O
Cristo ou o Logos, que seria o espírito que teria dominado a mente do
homem Jesus, também teria uma consorte, uma deusa chamada Sofia!
E assim vai a criatividade dos gnósticos, produzindo evangelhos
tardios escritos mais de cem anos depois da morte de Cristo e que hoje
chamados de evangelhos apócrifos. Como acentuou a própria Dra. King,
esses textos não têm nada a ver com o Jesus histórico, isto é, aquele
que viveu no início do primeiro século e fundou o cristianismo. Seu
retrato, mais fiel está nos Evangelhos canônicos e nos demais livros do
Novo Testamento que não se preocuparam em maquiar Sua imagem para
troná-Lo mais aceitável ao judaísmo e/ou às exigências do mundo
exterior.
Uma nota final: é tremendamente exagerada e anacrônica a leitura que
alguns autores fazem dos evangelhos gnósticos afirmando que eles já
discutiam, na antiguidade, o papel da mulher na religião e na sociedade.
Nada seria menos verdadeiro. Tenho em minha casa o texto de todos os
evangelhos apócrifos, e cruzando os dados desse fragmento com o que
dizem outros textos, como o Evangelho de Tomé, por exemplo, o que
percebo é que o contexto era a “posição de Maria Madalena entre os
discípulos” e não a posição da mulher “em geral” entre a sociedade. Os
gnósticos nem pensaram nisso.
Ademais, embora houvesse tradições judaicas que encorajassem o
celibato, o casamento era visto como uma possibilidade igualmente
abençoada (1 Qsa 1:4-10; Josefo, Antiguidades 18.1.5.21; Philo,
Hipotética 11.14-). Além disso, em 1 Coríntios 7:9; 9:5 e em 1 Timóteo
3:2, Paulo defende o direito apostólico de ser casado e menciona os
líderes da Igreja (Pedro, os apóstolos e os irmãos do Senhor) como
casados. Ora, se Jesus fosse casado, a Igreja não teria motivos para
esconder isso. Até o Apocalipse fala do casamento entre Cristo e sua
Igreja, uma imagem proscrita, caso tentassem esconder um pretenso enlace
entre Jesus e Madalena. Portanto, o completo silêncio da igreja
primitiva sobre esse assunto nos leva a crer não que estavam escondendo
uma verdade sobre o estado civil de Jesus, mas que Ele não era de fato
casado. Por outro lado, a multiplicação de textos na segunda metade do
segundo século sugerindo uma união marital com Maria Madalena só pode
ser uma adaptação ou criação literária tardia que nada tem a ver com a
verdadeiro Jesus de Nazaré.
(Rodrigo Silva é professor no Unasp, apresentador do programa
Evidências, doutor em teologia, especialista em arqueologia bíblica e
doutorando em arqueologia pela USP).
Eu concordo com o Professor Rodrigo Silva, se Jesus realmente tivesse sido casado não teria nenhum motivo para esconder isso pois a proria biblia apoia o casamento.